Você é feliz?!?!?
Em psicanálise, a traição do desejo tem um nome preciso: felicidade. Quando exatamente se pode dizer que as pessoas
são felizes? Num país como a Tchecoslováquia no fim da década de 1970 e na de 1980, as pessoas eram de certa forma
felizes: três condições fundamentais eram satisfeitas ali.
1. Suas necessidades materiais básicas eram satisfeitas – não excessivamente bem satisfeitas, pois o próprio excesso
de consumo pode gerar infelicidade. É bom sentir de tempos em tempos um pequeno racionamento de alguns
produtos no mercado (faltar café por uns dois dias, depois faltar carne, em seguida aparelhos de TV): esses
curtos períodos de racionamento funcionavam como exceções que lembravam às pessoas que elas deviam se
sentir felizes por esses produtos estarem em geral disponíveis – se tudo é disponível o tempo todo, as
pessoas tomam essa disponibilidade como fato evidente da vida e passam a não apreciar a própria sorte. Assim,
a vida continuava, regular e previsível, sem nenhum grande esforço ou choque; era possível se retirar para
seu próprio mundo privado.
2. Uma segunda característica, extremamente importante: existia o Outro (o partido) para receber a culpa de tudo
que estivesse errado, de forma que ninguém tinha de se sentir verdadeiramente responsável – se havia um racionamento
temporário de algum produto, ou mesmo se uma tempestade provocava grandes prejuízos, seria culpa "deles".
3. E por fim, mas não menos importante, havia um Outro Lugar (o Ocidente consumista) com que sempre se podia
sonhar, e até mesmo visitar ocasionalmente, um lugar que ficava à distância certa, nem muito longe, nem muito perto.
Esse frágil equilíbrio foi perturbado; por quê? Pelo desejo, exatamente. O desejo era uma força que levava as pessoas a
avançar – e chegar a um sistema em que a vasta maioria era definitivamente menos feliz.
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éééé do Zizek - no livro que lhes enviei - Bem-vindo ao deserto do real...
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