ética
... Consequentemente, as duas principais histórias que surgiram depois do 11 de Setembro são ambas piores, como Stalin
colocaria. A narrativa patriótica americana – a inocência sitiada, o surto de orgulho patriótico – é evidentemente vã;
entretanto, seria a narrativa da esquerda (com a Schadenfreude: os EUA receberam o que mereciam, o que já vinham
fazendo há décadas com os outros) realmente melhor? A reação predominante na esquerda europeia – e também na
americana – foi nada menos que escandalosa: todas as asneiras imagináveis foram escritas e ditas, até a posição "feminista"
de que as torres do WTC eram dois símbolos fálicos esperando ser destruídos ("castrados"). Não foi mesquinha e
infeliz a lembrança da matemática do holocausto (o que são 3 mil mortos contra milhões em Ruanda, Congo, etc.)? E o que
dizer do fato de a CIA ter colaborado na criação do Talibã e de Osama Bin Laden, financiando-os e ajudando-os a lutar
contra os russos no Afeganistão? Por que esse fato foi citado como argumento contra o ataque a eles? Não seria mais lógico
afirmar que o dever dos EUA era precisamente o de nos livrar do monstro que haviam criado? No momento em que
pensamos em termos de "É verdade, a queda do WTC foi uma tragédia, mas não podemos nos solidarizar inteiramente com
as vítimas, pois isso significaria apoiar também o imperialismo americano", já estamos diante da catástrofe ética: a única
atitude aceitável é a solidariedade incondicional com todas as vítimas. A atitude ética correta é aqui substituída pela
matemática moralizadora da culpa e do horror, que perde de vista um ponto importante: a morte terrível de todo indivíduo é absoluta e incomparável. Em resumo, vamos conduzir um experimento mental: se você percebe em si mesmo qualquer relutância em simpatizar com as vítimas da destruição do WTC, se sente necessidade de qualificar sua simpatia com a consideração de que "É verdade, mas e os milhões que
sofrem na África...", você não está manifestando simpatia pelo Terceiro Mundo, mas apenas a mauvaise foi que atesta
sua atitude paternalista e racista em relação às vítimas do Terceiro Mundo. (Mais precisamente, o problema com tais afirmações comparativas é serem elas tanto necessárias como inadmissíveis: é preciso fazer ambas as afirmações, é preciso dizer que coisas muito mais horríveis acontecem diariamente em todo o mundo – mas é necessário fazê-lo sem se envolver na obscena matemática da culpa).
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éééééé do Zizek - no livro que lhes enviei: Bem-vindo ao deserto do Real.
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