A democracia é hoje o principal fetiche político, a rejeição dos antagonismos sociais básicos:
na situação eleitoral, a hierarquia social é momentaneamente suspensa, o corpo social é reduzido a uma multidão pura passível de ser contada, e aqui também o antagonismo é suspenso. Há uma década, durante as eleições para governador do Estado da Luisiana, quando a única alternativa
ao ex-KKK David Duke era um democrata corrupto, muitos carros exibiam o adesivo: "Vote no ladrão – é importante!". Nas eleições presidenciais de 2002 na França, o líder da Frente Nacional, Jean-Marie le Pen, chegou ao segundo turno contra o candidato à reeleição Jacques Chirac, que era suspeito de improbidade financeira. Diante da escolha pouco invejável, muitos exibiam uma faixa em que se lia: "L'arnaque plutôt que la haine" [Antes o roubo que o ódio]. Esse é o grande paradoxo da democracia: dentro da ordem política existente, toda campanha contra a corrupção termina cooptada pela extrema direita populista. Na Itália, o resultado último da campanha das "mãos limpas" que destruiu o velho establishment político baseado na Democracia Cristã foi a chegada de Berlusconi ao poder; na Áustria, Heider legitimou sua subida ao poder em termos de combate à corrupção; até mesmo nos EUA é verdade aceita que os congressistas democratas são mais corruptos que os republicanos.
A ideia de uma "democracia honesta" é uma ilusão, assim como a noção da ordem do Direito sem o suplemento de seu supereu obsceno: o que parece uma distorção contingente do projeto democrático está inscrito na noção em si – ou seja, a democracia é démocrassouille. A ordem política
democrática é por sua própria natureza suscetível à corrupção. A escolha última é: aceitamos e endossamos essa corrupção com um espírito de sabedoria resignada e realista, ou reunimos a coragem para formular uma alternativa de esquerda à democracia para quebrar esse círculo vicioso de corrupção democrática e a campanha direitista para se livrar dela?
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lido no deserto do real... - éééééé do Zizek
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